PARA QUE UM DIA POSSAMOS “FLORIR” PARA VIDA

PARA QUE UM DIA POSSAMOS “FLORIR” PARA VIDA

Há uns anos atrás, ganhamos um vaso com violetas com suas folhas bem esverdeadas e com cor viva em suas flores, belíssima. E como gosto de plantas e flores, fui pesquisar um pouco como mantê-la viva e havia descoberto que não se deveria molhar as folhas, pois ficam manchadas com possibilidade de apodrecerem e não podiam ter contato diretamente com os raios solares, mas devem receber luz, não podiam estar expostas a temperaturas altas e que elas podem florescer o ano todo, principalmente no verão. Então me empenhei em cuidar dela, deixava-a dentro de casa, tomava cuidado para seguir as instruções, não molhar as folhas, não regar muito, que também é importante e como é normal na natureza as flores murcharam.

Esperei que ela viesse florir novamente, mas sem sucesso, a violetinha deixou de abrir botões, um ano se passou e nada, sem querer eu molhava as folhas e estás ficavam pobres e feias, o tempo passava e nem sinal de um botão, nem sinal de flor.

Rapidamente me lembrei de Leônia, a violetinha da família Martín, e pensei muito rapidamente, que não à toa a chamavam de violetinha, pensando bem agora, a violeta é modesta, simples e delicada, um tanto difícil de ser mantida e para mim era difícil de vê-la florescer. Vendo que não ia florir, a coloquei do lado de fora de casa, onde ela tomaria sol, chuva, frio e teria sombra, iria deixá-la, ou ela viveria, ou morreria de vez, a princípio a violetinha ficou feia, suas folhas estavam morrendo e de fato parecia que não a veria florir, passado um tempo, eis que surge botões, finalmente iria ver outra flor, depois de tanto tempo… As flores que floriram, entretanto não tão bonita como antes. Tinha “imperfeições”, era tão frágil, mas após essas primeiras flores, as demais que vieram mostraram-se mais bonitas, modestas e simples. As folhas secam, caem, mas outras flores nascem, a violetinha está sempre a florir e o vaso permanece no mesmo lugar, onde está exposta a toda mudança de tempo.

 Ao ver processo da violetinha, não lembrei somente de Leônia, mas da minha própria alma, do processo que temos para chegarmos ao termo de nossas vidas, quando somos batizados e recebemos os sacramentos, temos tudo para “florir”, mas, devido o pecado original, e tantas imperfeições, desordens, e pecados que cometemos nossa intimidade e união com Deus apodrece, murcha e muitas vezes parece que não tem solução, que não vamos conseguir alcançar a santidade; quando recomeçamos, há um caminho árduo, nos deparamos com nossos defeitos, pecados, e más inclinações. Podemos até fazer alguma ação e notar algum amor próprio, por exemplo, as orações, o recolhimento a princípio será difícil, e isso escrevo não para desanimar e sim encorajar, sim, isso mesmo, mas encorajar no que?

Há revestimo-nos com paciência e humildade, mesmo que as primeiras “flores” não sejam perfeitas, sabemos que quando se cultiva uma planta deve ter paciência para esperar seu crescimento até surgir os primeiros botões e então esperar elas florescerem e da mesma forma devemos cultivar a vida interior, pois é preciso perseverança, humildade, e como escrevi, paciência, usar os meios que nos é dado para cultivar intimidade com Deus, para que possamos adquirir virtudes e crescermos na caridade, alguns podem cair no risco de querer fazer tudo pelas próprias forças, e se frustram; nós colaboramos com a graça de Deus, pela busca sincera da santidade, sacramentos, vida de oração, pedindo o dom da fé, mas santidade é um Dom de Deus, Ele que faz crescer as virtudes, é Ele que nos dá graça do seu Amor, é Ele que nos fará santos, os santos que Ele quer que sejamos. Em um trecho da Imitação de Cristo explica muito bem isso: “tudo que temos, na alma e no corpo, todos os bens que possuímos, internos e externos, naturais e sobrenaturais, todos são benefícios Vosso (de Deus), e outras tantas provas de vossa bondade, liberalidade e munificência, que de vós todos os bens recebemos.”

   A família de Leônia a confiou a Deus, Santa Zélia, rezava por sua filha, e Leônia, a violetinha, simples, modesta e humilde floriu, morreu em odor de santidade. Que possamos nos abandonar nas mãos de Deus, busquemos com coração sincero a união com Ele, o cumprimento de sua vontade a cada dia, Ele irá dispor do que for melhor para nossas almas, assim como a violeta que ficou exposta ao sol, frio, sombra, chuva e ventos, confiemos em Deus, se Ele permite alguma provação, ou aflição, ou secura, Ele não nós deixará sucumbir, paremos um momento, e rezemos pedindo a Deus o dom da fé, da perseverança no cumprimento de sua vontade para que por sua graça possamos também um dia “florir” para a Vida Eterna.

Falta de tempo, ou de amor…?

Falta de tempo, ou de amor…?

 “A ociosidade é inimiga da alma” é o que foi regido por São Bento em sua regra, no ponto que é dito sobre ‘trabalho manual quotidiano’, basicamente, ele deixa claro para seus monges que se deve evitar o ócio, por meio da lectio divina, ou leitura espiritual, ou meditação, ou como ele mesmo diz “caso o irmão for tão negligente e preguiçoso que não queira ou não consiga meditar ou ler, deve receber alguma obra manual para que não fique ocioso” e ainda para mostrar, creio eu, não só a importância do trabalho manual para os monges, mas também o mal que causa o ócio para alma. O santo diz em sua regra “quem faz isso ­– se entrega ao ócio, preguiça – prejudica não somente a si mesmo, mas corrompe os outros”. Sim, hoje meditaremos sobre a ociosidade ou a famigerada ‘preguiçinha’.

  • Ociosidade significa: indolência, moleza, preguiça. O ócio é uma fadiga da alma, fazendo-nos fugir do cumprimento de nossos deveres, a sermos negligentes, corrompendo não somente a nós mesmos, mas o nosso próximo, abrindo a porta para outros pecados, e aumentando as más inclinações e consequentemente impedindo nosso progresso espiritual, vamos vivendo a nosso bel prazer, sem forças para lutarmos, sem ânimo para amarmos e nos fazendo adiar até mesmo nossa conversão.

 Precisamos saber a hierarquia das coisas e bem organizá-las, pois temos a realidade na qual podemos colocar as coisas, nós ou outros em primeiro lugar, consequentemente, tudo virará bagunça, mesmo parecendo que não, e quem devemos amar, quem deve estar em primeiríssimo lugar em nossa vida é Deus. Como no primeiro mandamento, devemos ama-Lo sobre todas as coisas: de todo coração, de toda alma, de todo o espírito e com todas as nossas forças. Se buscamos ama-lo, viveremos melhor, aprenderemos dispor de tudo por amor a Ele, a lidar com frustrações, a amar nosso próximo, pois Ele é bom mestre, é o Bom Deus que ajuda as almas de boa vontade que se apenham em agrada-lo.

Acontece que nos apegamos e damos demasiada atenção a coisas que pode ser necessária, mas é um meio e não fim, ao invés de usar os meios para o fim, que é Deus. Os meios se transformam no fim, e nessa bagunça toda enchemo-nos de tantas atividades para fazer que no final damos a mesma desculpa “não tive tempo”, “fiz tanta coisa hoje”, “estou cansado”, “não dá”, “não consigo” e sem perceber Deus vai ocupando o segundo lugar, o terceiro e quando nos damos conta O esquecemos; “ora” – talvez você pense – “mas não estou sendo preguiçoso(a), estou trabalhando, tenho que estudar. O que tudo isso tem a ver com preguiça, etc., etc.”… Como disse de fato estes são meios que precisamos e não fins, quem deve ocupar o primeiro lugar, ou pelo menos deveria, é Deus, Ele deve ser o centro de nossas vidas e por isso o que fazemos deve nos conduzir a Ele. O ‘lema’ de São Bento é justamente “Ora et labora” ora e trabalha, mas notem que a oração antepõe ao trabalho, como era expresso por São Cipriano “nada se anteponha Cristo, pois Ele nada antepôs a nós”.

Que triste saber que antepomos tantas coisas a Cristo, Ele que nada antepôs para nossa salvação…  

Li um texto interessante sobre preguiça, e me chamou muita atenção porque ao lê-lo pude ver algumas consequências que pode passar despercebidas que nem ao menos sabemos que possa ser preguiça, como o ativismo. O trabalho dignifica o homem e é um meio de santificação, como já citei, o problema é quando vamos enchendo-nos de tantas tarefas, temos o dia cheio para tudo, e não temos tempo para a oração, para Deus, nos dispomos a muitos afazeres que podem esperar que não são prioridades, ou inventamos qualquer coisa para não evitar o silêncio, para não parar, não rezar, parece que tudo é mais importante menos estar com Deus, e no final temos a “bela” justificativa “tenho tantas coisas a serem feitas, não tenho tempo!”;

Tem também a ordem defensiva a ordem é uma virtude, precisamos de uma rotina justamente para dispor melhor do dia, no cumprimento dos deveres, para servir o próximo e para melhor amar a Deus. O tempo da oração deve estar pautada sob a ordem oblativa, e não defensiva, e é importante saber que se algum imprevisto me ocorre ou se algo muda o plano d’Ele é melhor que o meu e ali poderei exercer as virtudes que tanto peço em oração, a ordem é uma virtude, um meio para chegar ao fim, e não deve ser uma forma de defesa, intocável, onde fico na mesmice, onde não aceito contrariedades.

Em contrapartida há algo perigoso que é o simplesmente ficar sem fazer nada esse é mais simples de reconhecer e abre espaço para a impureza, não à toa que quem sofre com imaginário afetado pela pornografia, ou tende a impureza de pensamentos, um dos conselhos que é dado que vai além da confissão e da oração é o trabalho manual, “a mente vazia é oficina do diabo” – já ouvimos muito, é importante ter uma ocupação, buscar ser útil e o trabalho é um ótimo meio para esse tipo de ócio, ou seja, evitar ficar à toa, como diz São Bento, busque uma leitura, estudo, ocupar-se com coisas santas e puras, ou simplesmente trabalho manual como já foi dito.

Nosso corpo quando entregue a preguiça, por mais inofensiva que pareça, torna-se como uma criança mimada que chora e esperneia ao menor sinal de esforço, que reclama por nada ou por muito pouco, e por isso é facilmente carregado pela correnteza, que caminha como quem carrega um grande fardo, o que é dito sobre a Vida de S. Bernardo, um grande ensinamento que podemos e devemos trazer para nossas vidas: “se é preciso amar seu corpo, ele o ama como a um próximo, que é preciso, portanto amar como a si mesmo, mas no fim das contas, não se trata realmente de “si mesmo”. E é ao corpo que ele diz “tu és terra e a terra retornarás” e ele mesmo ensina “o corpo é um estorvo, um incessante entrave, por suas necessidades aos exercícios espirituais. Ele (o corpo) nos arrasta para baixo” e finaliza “só gosto do meu corpo por causa da minha alma”, de fato a porta é estreita, se mimamos nosso corpo demais só nos causara danação e se o apertar demais sufoca-o, devemos fixar em Deus nosso olhar.

Não sei em qual as consequências a preguiça tem tido espaço na sua vida, talvez use a da “aparência da pessoa cheia de compromissos”, ou na ordem não como virtude, mas “defesa” ou talvez pelo “descanso” do dia, tarde ou noites desperdiçadas enfrente de telas – nos enganamos achando que isso é descanso – nas inúmeras desculpas em deixar para depois, para amanhã, mas veja para “cada preguiça” há um remédio, é preciso arregaçar as mangas e usar os meios que é dado, é necessário também mortificação, oração, coragem. Será que todas as vezes que me desculpei dizendo que “não conseguia” sendo que nem tentei; “to cansado”, mas não para passar horas a fio no celular, jogos ou TV; “não tenho tempo” será mesmo ou não quis priorizar a Deus. Será que essas desculpas são justas, verdadeiras, ou infelizmente é falta de amor a Deus? Não tive tempo, ou não O amei?

Precisamos ser como o grão de trigo que morre para que produza seus frutos, extirpar de nossas vidas reclamações, desculpas e ter diligencia priorizar a Deus e dispor da melhor forma o nosso dia, cumprir com zelo o dever de estado, e não ter medo de se gastar por amor para o amor, é dito que quem ama sempre da um jeito, se amamos e buscamos amar cada vez mais a Deus daremos sempre um jeito de estar na sua presença e de dar provas desse amor, e isso ensina bem São Bernardo:

Vocês querem saber de mim e em qual medida é preciso amar a Deus? Eis a minha resposta: o motivo de nosso amor por Deus é ele mesmo, a medida de ama-lo é ama-lo sem medida […] Deus merece ser amado e é vantajoso amar a Deus [“…]”.

Vida de São Bernardo de Claraval.

Olhemos para vida de Cristo, que foi trabalho, sofrimento, entrega contínua, esvaziamento de si, não havia preguiça ao pagar o preço de nossa redenção, meditando sua paixão nesse tempo propício saberemos quem devemos ser e como agir!  São Bento e São Bernardo de Claraval, rogai por nós!

FONTE: Vida de São Bernardo de Claraval

A regra de São Bento

https://padrepauloricardo.org/blog/eu-preguicoso

PINTURA: The Angelus, Jean-François Millet (1857-1859)

“Descascar nabos por amor a Cristo”

“Descascar nabos por amor a Cristo”

“Certo dia encontrava-se São Rafael trabalhando na cozinha quando, repentinamente, uma luz penetrou-lhe a alma impelindo-o a exclamar: “O que faço eu, Virgem Santa? Descascar nabos! Descascar nabos… para quê? “
E o coração pulando no peito contestou-lhe sem refletir: “Eu descasco nabos por amor a Cristo!”.
Veio-lhe então uma paz muito grande no mais fundo da alma, acompanhado pela ideia: “O mero fato de pensar que no mundo se pode fazer das menores ações da vida, atos de amor a Deus; que o fechar ou abrir um olho em seu nome, nos pode levar a obter o Céu; que descascar nabos por verdadeiro amor a Deus, pode dar tanta glória a Ele e a nós tantos méritos, como a conquista das Índias; […] É algo que enche a alma de alegria!”.
E conhecidos: “Na realidade para ganhar o Céu nos é pedido muito pouco”, pois, como afirma Santa Teresinha do Menino Jesus, Deus “olha mais para a intenção do que para o valor da ação”.”

SÃO RAFAEL ARNÁZ BARÓN, Escritos op. cit., n.787

Nestes dias deparei-me com esse trecho, retirei de uma página dedicada ao Santo trapista Rafael Arnáz, no qual particularmente nutro grande carinho devido à simplicidade de seus ensinamentos, o grande amor e abandono a vontade de Deus. A principio ia somente compartilha-lo na minha rede social, mas algo me chamou atenção, penso que esse “estalo“, esse momento de descoberta sobre descascar nabos por amor a Cristo poderia alcançar mais pessoas e ajudar-nos a ter um olhar atento no modo no qual realizamos nossas tarefas, afinal de contas trabalhamos, estudamos, nos socializamos, fazemos muitas coisas o que não é ruim em si mesmo, porém fazemos tudo de forma desatenta, estamos desnorteados e por vezes quando fazemos algo aparentemente comum, ou insignificante, aos nossos olhos, não sabemos aproveitar seu verdadeiro valor enquanto realizamos tantas coisas ao longo do dia, porém estas mesmas são desperdiçadas, que lástima…

São Rafael não estava no coro a rezar, ou recitando a liturgia das horas, ou na Santa Missa, ele estava a trabalhar na cozinha, e mesmo no seu trabalho ele mantém um diálogo com a Virgem Maria exclamando o “pra quê” ele estava a descascar nabos, qual mérito teria sua ação, de que isso valeria — afinal ele é monge e ali está para rezar também pelas almas. Mas ao dialogar com essa Mãe Bendita que não cessa de nos socorrer e que está disposta a nos aproximar de Seu Filho, ele obtém a resposta e brilha diante de si o “óbvio”: por AMOR a Cristo, pronto! Não é descascar aqueles nabos, o ofício em si mesmo, mas o modo: que é simplesmente fazer o pouco que fazemos cada um segundo sua vocação, puramente no amor, por amor e para o amor¹ e que alegria a paz verdadeira nos vêm à alma quando colocamos nossas intenções nos ‘trilhos’. Porque também somos chamados por amor a Cristo a limpar a casa, lavar louça, recolher brinquedos espalhados, a cozinhar, a organizar as planilhas, a realizar nosso trabalho a viver nossa vida, por amor e para o amor; o monge tem por vocação dar-se inteiramente a Deus, oferecer-se pelas almas, rezar por nós e essa era a vocação de São Rafael, mas, além disso, o seu maior chamado era Amar a Cristo, este também é o nosso maior chamado.

Não significa, porém que isso será feito com suspiros e arroubos, não, isso será feito com certa dificuldade e teremos de nos empenhar, pois tendemos, principalmente quando temos o habito de fazer a mesma coisa, a cair no relaxamento, a fazer por fazer, podemos deixar cair no esquecimento que estamos diante da presença de Deus, não só quando estamos na missa, ou rezamos o terço, mas continuamente, parece obvio, mas infelizmente o obvio tem de ser dito, daí que desanimamos que deixamos passar inúmeras oportunidades de amar a Deus, de progredirmos espiritualmente.

São Rafael descobriu que era tudo por amor a Cristo, entendeu até que o fechar ou abrir um dos seus olhos em seu nome, nos pode levar a obter o Céu. Ele, como citei nos parágrafos anteriores descobriu o segredo escondido, ele não fugiu, tampouco deu desculpas “ah, mas sou monge deveria estar no coro a rezar”, não, ele realizou seu trabalho na cozinha, sem brilho, nem gloria, para glorificar a Deus, porque sua vocação e a nossa também não é num “checklist”, mas é um conformar nossa vontade a de Deus,  é aprendermos a sermos generosos, entender que se as pequenas obras são estimuladas com a virtude do santo amor, e estão em bom odor diante da majestade de Deus, em consideração a elas, Ele aumenta a santa caridade². Deus fala conosco em nossa circunstância, se Ele quer falar conosco quando estamos a “descascar nabos” que assim seja, parece complicado, mas não é, porque de fato nos é pedido muito pouco para ganhar o céu, quando é por amor que vivemos, o que fazemos adquiri brilho, beleza, nossa vida torna-se fecunda.

Que a Virgem Maria nos ajude a termos um puro amor a Deus e a estarmos atentos a sua Doce Voz, para que possamos então com coração enamorado em tudo aquilo que fizermos e no final de nossa vida exclamar: “É por amor… Foi por amor”!

São Rafael Arnáz, rogai por nós!

1. (Sermon pour le I dimanche de Carême, IV, 230).

2. (Amour de Dieu, I, III, cap. II, I, 457).

É magnânimo ser fiel nas pequenas coisas!

É magnânimo ser fiel nas pequenas coisas!

“Muito bem servo bom e fiel; já que fostes fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor.” Mateus 25, 21.

A fidelidade é ‘um hábito bom’ e necessário tanto para vida de oração quanto para o trabalho, num todo, ela faz com que cumpramos com nossa palavra, com nosso dever, invés de nos deixarmos levar pelos nossos impulsos e sentimentos que variam continuamente, é dito no livreto ‘Fidelidade’ que a pessoa fiel é feliz com as exigências que a sua fidelidade lhe impõe.

Bem, você já deve ter escutado ou lido essa belíssima parábola sobre os talentos: o senhor viaja e confia a cada um de seus servos o seu talento, de acordo com a capacidade de cada um, a um confia dois talentos, a outro cinco e ao outro um; depois de muito tempo o senhor retorna e pede contas daquilo que lhes foi confiado e cada qual apresenta os “frutos”. Os que foram fiéis e fez render os talentos recebe um elogio amoroso, o último porém nada fez, o único talento que lhe havia sido confiado foi enterrado e devolvido para o senhor e este o repreende severamente, chamando-o de servo mal e preguiçoso. Trazendo para nossa vida, Deus nos confia também “talentos”, os dons, as graças que todos os dias sem que percebamos nos é confiado e Ele nos concede de acordo com a nossa capacidade, o que lhe é confiado não é o mesmo tanto que é confiado ao próximo pois cada um tem uma circunstância e cada alma é única e diferente umas das outras, umas estão mais adiantadas outra no início da sua caminhada, umas mais abertas, enquanto outras mais resistentes a Deus e assim por diante. Acontece que corremos o risco de agirmos como o último servo, que guardou o “talento” para si, tem coisas que fazemos, sabemos e temos que parece que é nosso, como se não nos fosse dado, e tem coisas que vemos de forma clara que é pura graça divina. Mas nada é nosso, até aquilo que pensamos que é nosso propriamente dito não é, tudo é graça imerecida; o servo pensando talvez que se guardasse aquilo que lhe foi dado pelo seu senhor poderia devolve-lo — pra quê fazer render os frutos se estes serão pedidos de volta? — e ficar com aquilo que ele julga ser dele mas Deus diz “ao que não tem será tirado mesmo aquilo que julga ter”, essa atitude foi fruto da falta de generosidade. Somos sujeitos a essa tentação de acharmos que Deus está sendo duro, de sermos egoístas ou calculistas no que devemos dar para ser de Deus e no que deve ser somente nosso, corremos o risco das pequenas infidelidades que pode nos levar a grande infidelidade, ‘tristeza’ eterna, em contrapartida somos chamados a cada dia sermos fiéis nas pequenas coisas para sermos também nas grandes e alcançar a felicidade Eterna.

Diria que é magnânimo ser fiel nas pequenas coisas, enquanto as grandes não acontecem sempre, nossa vida não é como num filme, é por vezes monótona, é rotineira, simples e por isso é preciso muita atenção para não deixar passar as pequenas graças ou cruzes, não à toa que o Santo do cotidiano disse que temos ‘que descobrir o segredo – para tantos escondido – da grandeza e da novidade: o Amor‘,  essa grandeza e novidade desse amor está escondido naquilo que por falta de atenção ou por achar insignificante passa por nós sem notarmos as pequenas coisas. Passamos o dia entediados ou cansados e parece que não aproveitamos, não amamos porque ficamos aguardando um grande ‘evento’, uma grande cruz, um grande ato quando poderíamos através de pequenas atitudes ter colocado mais ‘lenha’ no fogo da caridade em nós.

O pecado venial não tira de nós o amor de Deus, como faz o pecado mortal, porém ele enfraquece esse amor, vai nos tornando pouco a pouco tíbios e pode nos levar a cair em algo maior: o pecado mortal. Em contrapartida a fidelidade no nosso dever, na nossa vocação, no nosso apostolado, nos estudos, isso vai alargando nossa alma, tornando-a grande.

Há tantas pequenas coisas que podem ser feitas e aumentar em nós o amor a Cristo: fazer um sinal da cruz bem feito, rezar quando não se tem vontade, recitar uma jaculatória, fazer oração com atenção, sorrir quando não se tem vontade, ser dócil com quem nós é difícil, tentar ouvir com atenção o próximo, silenciar quando se quer brigar ou fazer um comentário áspero, preparar a comida com especial cuidado, entregar os trabalhos dentro do prazo, dedicar-se no tempo proposto para os estudos, não deixar para depois o que se pode fazer no dia de hoje, abrir mão de alguma guloseima, ter discrição ao se mortificar, fazer bem feito o que se dispôs a fazer, manter a beleza no lar para fazer um lugar agradável, entre outras infinidades de pequenas coisas que podem ser feitas, que torna a vida amável ao próximo e faz que com que nos mortifiquemos, pois esse “cuidado com os pormenores vai exercitando a vontade e acostumando a mente… quem se habitua a cuidar do que é pequeno não fracassara quando chegar o que é grande”.

Talvez você pense que foi dito muito sobre pequenas coisas, mas nada nasce grande, não é mesmo? A maior árvore já foi muitíssimo pequena, um único grão de areia é insignificante, mas tantos, tantos e tantos outros formam a praia, o mesmo com o mar, ou uma grande chuva, formada por tantas gotas d’água, quem diria que aquilo é pequeno? Nós mesmos já fomos bebês, não sabíamos nem andar, nem falar, não sabíamos de nada, erramos se desprezamos as pequenas coisas, só seremos fiéis naquilo que é grande quando soubermos valorizar e aquilo que é pequeno, isso exige humildade, generosidade e paciência, sabendo que nada é nosso e se Deus nos exige os frutos não é por interesse próprio, Ele é Deus e nós não aumentamos e nem diminuímos em nada a Sua grandeza, a Sua glória, até quando adoramos e o louvamos em nada isso afeta ou o faz mais feliz, ou “mais Deus” ou mais grandioso, Ele é aquilo que É, o que Ele nos pede, exige, tudo é para nosso bem, para o benefício, salvação e santificação de nossa alma. Que Deus lhe abençoe e lhe conceda a graça de ser fiel nas pequenas coisas e um olhar atento e coração disposto para descobrir o segredo escondido: o Amor!

Deixo aqui, por fim, essa frase belíssima de Santo Agostinho para lhe ajudar nesse caminho: “o que é pequeno, pequeno é; mas aquele que é fiel no pequeno, esse é grande.”

FONTE: Fidelidade, Javier Abad Gómez

ANO DEDICADO A SÃO JOSE: Aprendamos um pouco mais com esse Grande Santo!

ANO DEDICADO A SÃO JOSE: Aprendamos um pouco mais com esse Grande Santo!

Este ano será dedicado ao Glorioso São José, no qual a grandeza de sua vida é desconhecida por muitos, afinal, não é dito muito sobre ele nos Evangelhos e nenhuma palavra por ele foi transcrita.

São José viveu “as sombras” de Jesus e de Nossa Senhora, não o digo para diminui-lo mas para trazer aqui um aspecto belíssimo de sua vida, a união da vontade dele com a de Deus, união esta que o fez buscar unicamente o olhar de Deus e não do mundo, que fez com que ele vivesse uma vida escondida e sem brilho diante dos homens, mas grandiosa e gloriosa diante de Deus, e é esse aspecto de sua vida que gostaria de refletir para que possamos de alguma forma, dentro de cada circunstância, estado de vida e trabalho aplicar em nossa vida.

São José em tudo foi obediente a Deus e porque era justo (santo), humilde e um homem de oração estava em união à Sua vontade. Em seu íntimo, Deus lhe dizia o que fazer e ele com atenção e prontidão fazia-o sem hesitar, como diante do mistério da encarnação em que ele, não porque duvidava da pureza e santidade de Nossa Senhora, mas por humildade – pois “não se achava digno de assumir para si o fruto tão santo daquele ventre” – pensou em deixá-la e Deus lhe falou em sonhos para assumir aquele chamado e não temer em receber Maria por esposa.

Ao ouvir as palavras da Imaculada, escuta com atenção, acolhe, aceita e obedece, dando-se por inteiro nesse chamado magnânimo de chefe da sagrada família, de zelar pela pureza de Nossa Senhora, de proteger o Menino Deus das garras de Herodes, de ensina-lo seu ofício, a manejar as ferramentas; penso em São José na sua carpinteira oculto do mundo, com Jesus, se santificando dia após dia, pois que “o trabalho humano, ordinário e cotidiano, se feito em união com Cristo, é um caminho de santificação pessoal”.

A vocação dele é totalmente diferente dos apóstolos, digo que até seja contraditório os estados de missão, de fato, os apóstolos saiam em missão pelo mundo pregando para multidões e Deus realizava milagres através deles, enquanto São José estava na sua carpintaria, anos antes, cumprindo sua missão que era cuidar e educar o maior milagre que a humanidade poderia receber, o Menino Deus.

Dá mesma forma que tais fatos brilharam diante de mim, espero que também brilhe diante de seus olhos, pois a vocação de São José e dos Apóstolos mesmo sendo um pouco diferente em seus estados de missão, tem em si a mesma finalidade que é fazer a vontade de Deus.

Se fossemos resumir em palavras e transcrever nesse texto, diria que a santidade é: Estar unido a Vontade de Deus”. Também não podemos permitir que tal permissão torne-se um fardo ou até mesmo algum motivo de tristeza, embora muitas vezes seja difícil e até chegamos a relutar, chorar, brigar, não querendo aceitar a Santa Vontade por tantos motivos, seja pelo pecado original, falta de oração, orgulho etc.

O que fará com que nos santifiquemos não é o que fazemos em si, mas porque fazemos, é a união com o querer de Deus, estar onde Ele quer que estejamos, abraçar as circunstâncias, em nosso trabalho cotidiano; Talvez você trabalhe numa grande corporação e seja reconhecido ou em uma pequena empresa onde não haja “reconhecimento” dos seus esforços, tudo isso não importa, quantos empregos “ocultos” no mundo que passam despercebidos, mas que sem esses trabalhos não teríamos o que temos; a dona de casa, a mãe que cuida do seu lar “de Nazaré”, trabalha tanto, se sacrifica e é tão importante para os seus, quem está olhando suas abnegações diárias? Quem está olhando as noites de sono sacrificadas? A paciência que ela tem de exercer quando a irá quer lhe tirar dos trilhos? O pai que não é tão solicitado quanto a mãe, que tem como que um “simples papel”, que trabalha para sustentar os seus, cada trabalho, cada sacrifício, ou até reconhecimento, há os que pelo estudo, pela vida intelectual é chamado a servir o outro, pelo ensino etc.

Tudo isso pode e deve ser um meio para nos unirmos a Deus, pois Ele é o nosso fim último, e é abraçando a cruz, seja pequena ou grande que a cada dia nos é proporcionado, devemos cumprir fielmente nosso dever, como São José, atento e obediente.

Vemos que a vida de oração e de trabalho estão interligados, quanto mais oramos mais nos silenciamos e torna-se mais fácil ouvir a voz de Deus, portanto, aprendamos, pois, com São José a não buscar as coisas dessa terra, mesmo que tenhamos reconhecimento, mas sim, as coisas do alto, que nos darão o reconhecimento dos eleitos, sendo fiel nas pequenas coisas para que possamos ser também nas grandes, lembrando que a vontade de Deus que nos santificará e nada mais.

Uma frase que particularmente para mim é uma lição e resume a vida de São Jose:

“Que ninguém nunca fale de nós contanto que Deus fale um dia”.

Fonte: https://padrepauloricardo.org/

Ora e trabalha: comecemos pela oração…

Ora e trabalha: comecemos pela oração…

Lembro-me de um trecho do livro de Santa Catarina de Siena onde dizia que “o Espírito Santo havia lhe ensinado como construir para si mesma uma cela no seu interior”.

Graça que Santa Catarina adquiriu diante de uma realidade não muito comum diante dos grandes Santos Monges e Monjas; Por ter uma família grande, teria que trabalhar muito e ao mesmo tempo, não poderia abandonar a vida de oração, contudo, ela mesma afirmava que estava servindo Jesus Cristo, a Virgem Maria e os Apóstolos.

Os monges por sua vez, vivem uma vida “simples” dividida em algumas dimensões, sendo elas: oração e trabalho. Tanto que o que mais me chamou atenção em um documentário sobre a vida dos Cistercienses [1], era a forma que eles rezavam e trabalhavam, de modo que,  como se cada ato realizado fosse pensado, não era algo apressado, de qualquer jeito, mas totalmente ao contrário, é ordenado, bem vivido e experienciado, tornando o trabalho uma extensão da oração.

Talvez possamos cair na seguinte tentação: “Ora mas eles são monges e nós não, é impossível viver da mesma forma”, talvez você pense isso pelo fato de viver em um mundo agitado, com tantos ruídos, preocupações, afazeres no lar, estudos, trabalho, enfim, “tantos – tantos”, mas o que gostaria de indagar é o que temos feito e como temos feito nosso trabalho? Como que Santa Catarina conseguia fazer as coisas na sua casa, com sua grande família, servi-los, mas permanecer nesta cela interior? Como não desperdiçar esse meio que é o trabalho para nossa santificação pessoal e também salvação das almas? Comecemos, pois pela oração…

De fato, o trabalho deve ser uma via de santificação para nós, um meio eficaz onde podemos exercer muitas virtudes e até mesmo contribuir para a salvação das almas “trabalhar é amar, é servir e é voltar a criar. A construção do mundo, desde a sua origem, foi trabalho de Deus”, entretanto, com a oração.

São Josemaria Escrivá, o santo do cotidiano diz que “como é que serão as tuas obras, se não as meditaste na presença do Senhor, para bem ordena-las? Sem essa conversa com Deus, como hás de acabar com perfeição o trabalho de cada jornada?” se os nossos atos não estão ordenados e muito menos oferecidos para Deus, então de nada adiantará tantos “afazeres”. A oração não só é o elemento fundamental, como também é a base para que saibamos pôr em ordem os nossos atos e sentidos diante de Deus e por meio dela que vamos tendo força para suportar uma dificuldade, saber dispor do que temos para beneficio do outro e para alcançarmos as virtudes que o trabalho nos propõe.

É pedindo pois a Luz do Espírito Santo que vamos vendo onde nosso amor próprio estava, como erva daninha, invés do amor de Deus que é o que fará com daremos bons frutos, dizemos tantas vezes que não temos tempo, quantas vezes temos tempo mas nos  faltava no fundo determinação, uma pequena renuncia, deixar o celular por um instante, por exemplo, ou acordar um pouco mais cedo, ou se organizar melhor, porque sempre temos tempo para navegar nas redes sociais, ouvir nossa musica preferida, responder um amigo, mas nos falta a determinação, a compreensão que a oração é para nossa alma o que o alimento é para o corpo, portanto se não tivermos um momento para orar, por mais singelo que seja, de silencio, de recolhimento, de “meditar na presença de Deus”, nos perdemos, vamos confundindo a importância das coisas e vamos nos deixar ser arrastados e desordenados.

Não é por que somos de vida ativa que não conseguiremos ter vida de oração, pelo contrário, precisamos e muito dessa condição para sermos sal e luz no mundo e ainda mais para alcançamos a santidade, então que possamos ao levantarmos agradecer a Deus pelo dom da vida e ao o anjo da guarda, pois por meio dele, que tivemos nossa vida guardada durante a noite, logo a vida é um dom e por isso devemos pedir a graça de zelar por esse dom e não desperdiçar o dia que nos foi dado. As jaculatórias ao longo do dia podem ser de grande valia, pois são atos espirituais que elevam o coração a Deus, contribuindo com a nossa memória a se lembrar de Deus dentre os afazeres, mesmo sendo eles: no estudo, no seu lar, trabalho etc.

Lembra que perguntei o que e como fazemos nosso trabalho? Pois bem, devemos pela oração pedir misericórdia pelo que não fizemos tão bem (voluntariamente) e oferecer com humildade aquilo que fizemos bem, aqueles minutinhos ou horas, quem sabe, que passamos ociosos na internet, podem ser mais bem aproveitados pela oração pessoal ou lectio divina (leitura orante da palavra); Aos poucos vai aumentando pois a medida com que conhecemos a Deus, mais o amamos, mais queremos amar e só se ama o que se conhece, e é pela oração e leitura da palavra, a participação dos sacramentos, que vamos conhecendo a Deus.

Os santos rezaram muito e os monges seguem os mesmos passos, por que descobriram que é por meio da oração que se une de verdade a Deus; O trabalho e o apostolado que os santos tiveram é então uma extensão dessa vida interior cultivada no silencio, no recolhimento e penitencia, é por isso que se torna uma atividade frutífera, via de santificação, caminho árduo, mas que vale a pena.

Para que saibamos aproveitar bem os meios que Deus na sua providencia nos dispõe para nossa santificação, caminhemos com passos sejam eles curtos ou largos, mas caminhemos sempre lembrando que “nossa melhor arma é a oração… devemos ser almas contemplativas no meio do mundo, que procuram converter o trabalho em oração”.

[1] Minha Biblioteca Católica – Documentário sobre a vida dos Cistercienses.

FONTE: Vida de Santa Catarina de Siena.

Sulco 448 e 497 São Josemaria Escrivá.

Fidelidade, Javier Abad Goméz.